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COLUNA | Maldita Geni!

Kathleen

Por: KATHLEEN LOPES | 30 Julho 2015 | 11h37

Viviany Beleboni, modelo e atriz transexual, em performance artística realizada durante a 19ª Parada do Orgulho LGBT em São Paulo, em 7 de junho de 2015, desfilou crucificada num trio elétrico com cartaz acima da cabeça clamando pelo fim da homofobia. Nas redes sociais, sua aparição gerou comoção entre os internautas, resultando em inúmeros comentários revoltosos. “Uma afronta!”, afirmaram enfaticamente. “Mas que falta de respeito!”, vociferaram ofendidos.

Hoje, quase dois meses após o ocorrido, tento, ainda, entender se tamanho incômodo, se tamanha balburdia, reside no fato dos enfurecidos acreditarem ser uma mulher representando Cristo ou que uma mulher transexual tenha ousado fazê-lo. O fato, no entanto, é que desde então Beleboni vem sofrendo incontáveis ameaças e teve, inclusive, seu trabalho prejudicado por aqueles que consideram descomunal desrespeito Jesus ser representado por uma mulher trans, mas que não sentem nem no mais profundo recanto da alma mal-estar ou pesar em restringir a liberdade de um ser humano com desmedidas intimidações.

Mais de 30 anos após seu lançamento, a música “Geni e o Zepelim”, de Chico Buarque, mostra-se coerente nessa realidade nossa de crucificações e apedrejamentos diários. Sim, porque a crucificação de Viviany na Parada LGBT é uma reprodução de algo que acontece todos os dias, sistematicamente. E as mesmas pessoas que esbravejaram repulsas a seu ato são as que na música de Chico insistem em jogar pedra na Geni. De diferentes formatos e tamanhos, cada pedra é muito mais do que o dicionário classifica como “pedaços soltos de rocha constituídos de matéria mineral sólida”. As pedras desferidas contra Viviany ferem muito mais que as pedras retratadas nos dicionários. E nenhuma mulher, seja ela trans ou cis, está livre das pedras que jorram de uma sociedade forjada na opressão.

Geni foi apedrejada por, opondo-se ao que ditava todos, “dar pra qualquer um”. Já Viviany foi apedrejada por cometer a terrível afronta de aparecer em público crucificada – afinal, a crucificação é um “privilégio” apenas de Jesus, certo? Brena foi apedrejada por ter fotos íntimas suas espalhadas pela internet. Amanda foi apedrejada por usar roupas curtas. Carol foi apedrejada por não querer ter filhos. Todas foram apedrejadas por serem mulheres.

Em tempos de convicções irrefutáveis e disseminação de ódio a qualquer um que discorde das verdades absolutas regadas das mais arraigadas opressões, o correto, o aceitável, é continuar jogando pedras na Geni, afinal, ela é boa de apanhar, ela é boa de cuspir, e que ela nem pense, sequer cogite!, revidar, senão…

Maldita Geni!

 

About Kathleen Lopes

Kathleen Lopes, 18 anos, mora em Natal - RN desde o maravilhoso dia em que começou a estudar jornalismo na UFRN. Apaixonada por livros e pessoas, tem uma visão muito poética sobre si e a vida.

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