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COLUNA | Alma doce, vida amarga

isabela coluna

Por: Isabela Maia | 14 Julho 2015 | 12h42

Eram nove horas da manhã quando Zuleide — com 55 anos de idade, ela não possui nem um único fio de cabelo grisalho em sua curta cabeleira — e eu saímos de casa naquele dia quente e seco do suposto inverno; não há inverno aqui, só calor constante. Caminhamos a passos lentos, conversando sobre os pormenores de sua vida; ela contava sobre as intrigas no trabalho e na família, enquanto eu apenas a ouvia e tecia comentários aqui e acolá; minha mente flutuava para longe. À medida que discorria sobre seus anseios, eu pensava em como iria abordá-la — como chegaria em uma pessoa tão simples, tão comum. De alguma maneira, eu entendia que, imerso naquele baú trancafiado, encontrava-se uma miríade de histórias.

Quando chegamos à parada de ônibus — após um longo tempo, em razão de seu andar já vagaroso pelos problemas nas articulações — não havia ninguém; éramos acompanhadas exclusivamente pela brisa leve que nos acalentava e arrefecia o calor. O tráfego nulo aumentava a sensação desértica. O transporte demoraria. Era hora. A pergunta escapou de meus lábios antes mesmo que eu tivesse controle sobre ela. Zuleide, um tanto tímida, um tanto sorridente, ficou embaraçada, mas lisonjeada também. Tentou negar. Mas a vontade de contar sua história, o desejo de finalmente tirar aquele peso de si, foi suficiente para libertá-la; poucos segundos depois sua vida jorrava bem na minha frente e eu ouvia, hipnotizada, o relato de uma mulher cheia de amor, com uma vida antagônica ao que merecia: a prova viva de alguém nascida para questionar o karma; Zuleide transbordava bondade, mas bondade, em troca, nem sempre era o que recebia.

***

Zu, apelido carinhoso, trabalhava em casas de família desde os nove anos de idade. A virtude de ser dona de um coração bondoso a fez sempre aguentar, com seu largo sorriso preso aos lábios, todas as dificuldades que essa situação a impôs. Antes disso, e despeito das dificuldades, tivera uma infância feliz. A família não possuía uma renda muito adequada à quantidade de membros que nela havia; o pai era pescador e a mãe, dona de casa. O único alimento que a nutria e aos irmãos era um pouco de pão e leite pela manhã e um peixinho passado na farinha pela tarde, após as 17 horas, assim que o pai regressava da jornada. “Quando a gente avistava o barco já corria para recebe-lo e gritava bem alegre: Mãe, o papai chegou!”.

O maior amor que recebeu na vida talvez tenha sido o dele. A mãe, pelo contrário, conferia-lhe um tratamento diferente das irmãs; escondia-lhe coisas quando pedia, dizia que não tinha comida ou que acabara — depois, quando Zuleide descobria a verdade, seu coração apertava. “É difícil quando você ama alguém e ela não gosta de você, mas eu nunca deixei de amar minha mãe por isso, só não amava ela tanto quanto amava o meu pai”, fala. A conexão que mantinha com o pai era sua alegria de viver. Desde o instante em que ela passou a trabalhar para ajudar no sustento da família, eles se despediam todos os dias no momento de sua partida; no regresso ao lar, antes mesmo de descer do ônibus, Zuleide avistava o pai sentado em uma cadeira de balanço em frente à casa, aguardando-a. E foi assim até o último suspiro desse amor. “Parecia que ele estava só me esperando chegar em casa para ir embora. Eu corri e o abracei e ele segurou minha mão bem forte, só deu tempo de dizer que o amava e ele também, depois…”. Uma lágrima tímida escorre pelo seu rosto enrugado. É difícil percebê-la: a lágrima carece percorrer muitos túneis até finalmente libertar-se e cair, lúgubre, no chão do ônibus.

No transporte cheio e sacolejante, Zuleide, uma senhora de rosto levemente enrugado, olhos pequenos e sobrancelha clara, precisa elevar a voz para ser ouvida. Relata sobre sua ida à São Paulo aos nove anos, quando começou a trabalhar numa residência. Lá, tornou-se uma criança cuidando de outras crianças. Todo tostão que recebia enviava para a família — costume que mantém até hoje. Não tem coragem de comprar uma garrafa de água na rua para não gastar o dinheiro que sente dever aos seus consanguíneos.

Quando voltou para o Nordeste, em sua mocidade, conheceu um sujeito — refere-se a ele como se sequer fosse humano, chamando-o de “isso”, “aquela coisa”, ou simplesmente evitando-o intitulá-lo de algo —, juntou-se e teve quatro filhos. Zuleide acredita que eles não a tratam com tanto amor quanto ela o faz: “Meu filho não gosta de mim, sabe? Ele me xinga muito, me chama de rapariga”, sussurra com ar de censura, como se pronunciar tal palavra fosse errado, como se ainda lhe causasse espanto. A relutância dele em aceita-la e respeitá-la não a intimida. Mas continuar tentando dialogar com ele, tentar muda-lo e contatá-lo, não surte efeito; não adianta.

Em casa, mora com a irmã, filhas, sobrinhas e seu neto. No instante em que se refere à sua moradia, soa como o último lugar em que gostaria de estar. É ignorada, maltratada, desrespeitada. Diante das histórias que explana, não dá para se manter impassível: é estarrecedor que uma família ouse tratar um de seus membros de maneira tão desumana. A irmã mais nova destrata-a frequência — age como se Zuleide fosse bicho, desprovida de sentidos, de vontades. Sua irmã Antônia, certa vez, fingiu que Zuleide — toda molhada de lavar roupa incansavelmente — nem existia para uma visita. Dando de ombros, abanando a mão com desdém, disse: “Mora aqui”. Reduzida à coisa, à ninguém, Zu ficou em pedaços; represou as emoções, dissimulou a própria tristeza.

Não conseguia entender o porquê de ser tratada com tamanha arrogância. Talvez jamais entendesse.

Não foi a última vez que algo assim a acometeu. Uma tarde, lavando roupa no quintal, trancaram-na do lado de fora. Ignoravam seus apelos como se Zuleide fosse um cão ladrando por um motivo qualquer. À noite, por fim, depois de ser obrigada a tomar banho na mangueira do quintal, permitiram-lhe relutantemente a passagem: “Você vai sujar a casa toda que eu acabei de limpar”, reclamava a filha enquanto abria a porta com ignorância. A mulher não esboçou reação — havia se aprimorado em camuflar a dor.

Nem toda a família a trata mal, felizmente. Como se o espírito de seu pai houvesse abraçado um novo alguém, sua filha Raquel ama-a intensamente. E, no entanto, o abismo de um oceano as separa. A despeito da distância, o amor entre mãe e filha é forte como rocha; e as tentativas da menina em convencer Zuleide a visita-la não cessarão até serem aceitas. “Ela comprou passagem pra mim e tudo, o voo era direto daqui pra Itália, e não era em classe econômica, não; era naquela outra”. Uma surpresa Deus não se compadecer da situação. Como pode o único amor da vida de alguém estar tão distante?

***

Estamos na cozinha. Zuleide prepara café com leite enquanto devaneia sobre seus sonhos e objetivos. Quer sair daquela casa de loucos desalmados. Já encontrou um quartinho para alugar em Ponta Negra, Natal, e com o seu salário poderia se manter muito bem lá, sossegada, em paz. Poderia usar o que lhe restasse daquele dinheiro, poderia ler o dia inteiro, e, pela noite, poderia ligar a televisão para não se sentir tão sozinha.

Na casa com a família, Zuleide não encontra a paz necessária à concentração da leitura. Jogam-na de um lado para o outro. Ela tenta ajudar com a louça, eles recusam. Ela tenta ajudar com as roupas, eles recusam. Quando, enfim, se senta, eles mandam-na levantar. Se descansa, mandam-na trabalhar. Se trabalha, mandam-na parar. Não se sente livre, não pode viver. Quietinha, deitada na cama, poucas vezes encontra um momento oportuno para ler seu livro preferido, a Bíblia. Lê e relê. Ama aquelas histórias — são seu conforto, o que sustenta acesa a chama da esperança em seu coração.

Voltamos aos casos. Este, em especial, deixou-me boquiaberta, tão indignada que quis entregar-lhe naquele momento mesmo todas as minhas rasas economias para que ela alugasse um apartamento longe daquela gente. Zuleide, tão pacífica, sempre deixou passar tudo o que lhe faziam. As coisas não acabaram muito bem na única vez em que pensou reagir, não se calar.

Acabara de utilizar uma batata para fazer um purê para seu neto adoentado — era sua comida preferida e ele não havia se alimentado bem naquele dia. O menino, entretanto, rejeitou a refeição, ao passo em Zuleide precisou jogá-la fora. Enquanto lavava o prato, sem utilizar luvas para proteger suas mãos, que, mesmo já calejadas, ainda eram macias, sua irmã começou a reclamar que ela tinha gastado a batata “para nada”, vociferando que Zuleide não fazia nada na casa, não ajudava, que só estava ali para atrapalhar. Aquele foi o ápice de sua tolerância, o fim de sua paciência. Era suportável ser tratada como animal, como invisível, como o que fosse, mas era inconcebível que aquela mulher ousasse inferir que Zu não fazia nada pela casa, quando esta sequer tocava seu próprio salário. Não, não iria aceitar. Bradou de volta tudo o que fazia por aquela casa, que a excluía até nos assuntos mais simples, como discussões sobre a própria residência, como se ela não compartilhasse a mesma vida, o sustento. Desferiu palavras represadas por anos. A ira foi tanta que quebrou o prato que lavava. Ela se desculpou e passou a limpar a sujeira.

Terminado o trabalho, foi-se retirando para a sala quando sua sandália grudou em algo. Olhou para o chão e deparou-se com uma poça interminável de sangue. Um pedaço de vidro atingira uma veia de seu joelho e o líquido escarlate jorrava imparável. Todos estavam na sala. Zuleide não pediu socorro e nenhum deles se deu ao trabalho de ajudá-la; não fosse por uma vizinha estar passando no momento, talvez seu corpo cansado, envelhecido, não tivesse suportado. Zuleide ainda relutou em aceitar a ajuda da vizinha, por não estar acostumada a ser bem tratada. Passaram pela sala na saída e sua irmã a olhou com desprezo e murmurou: “Achei bem merecido”. O barulho da televisão preenchia o ambiente. Ninguém disse mais nada.

***

A única coisa de que se arrepende na vida é de não ter estudado. Gostava de estudar, mas foi obrigada a parar aos doze anos. Anseia pelo momento em que poderá voltar a praticar o ofício de estudante. “Em Ponta Negra tem uma escola para adultos”, conta animada. Orgulha-se de poder dizer que todos os seus filhos frequentaram a escola até o fim. A próxima será ela.

No auge de seus 55 anos, almeja pela aposentadoria. É como uma jovem de 18 anos presa no corpo de uma senhora; sua alma não teve tempo de envelhecer, pois sua infância, sua adolescência, foram-lhe acintosamente negadas. Zuleide não se arrepende, porém: é grata pelo pouco que recebeu e feliz por tudo que conquistou. Mas agora quer mais. Agora quer sair da casa onde a maltratam. Agora quer viver a vida que nunca pode usufruir. Agora quer tomar nas próprias mãos as rédeas do destino que nunca guiou — e ser livre.

 

About Isabela Maia

Isabela Maia tem 18 anos e é estudante de jornalismo na universidade dos seus sonhos. Ama ler, escrever e estudar. No início do ano criou seu blog Metamorfisa para dividir seus pensamentos de universitária e agora também tem uma coluna semanal n’O-Livreiro. Ainda não tem certeza do que quer fazer no futuro, só sabe que ama jornalismo e se dedica a isso o máximo que pode.

4 comments

  1. Muito bem escrito, fiquei com os olhos cheios de lágrimas

  2. Parabéns Isa!!!!
    Linda materiai!!!
    Linda história e uma história real.

  3. Talento é coisa que poucos tem… Parabéns, Isa!! Texto lindo, muito bem escrito!! Sucesso sempre, amiga.

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