Resenha: “12 Anos de Escravidão” — Solomon Northup

Páginas: 232
Editora: Seoman
Autor: Solomon Northup

Por: Rebeca Medeiros

12 Anos de Escravidão é relato um autobiográfico escrito por Solomon Northup, publicado originalmente em 1853, sobre o tempo em que o mesmo passou como escravo na Louisiana, Estados Unidos. Este é um relato único sobre a escravidão, tendo em vista que a maioria dos livros que se encontra sobre o assunto retrata apenas o lado do opressor.

A primeira coisa que tenho a dizer é que este livro talvez não seja para qualquer pessoa. Primeiramente porque o tema por si só não é fácil, ainda mais na situação em que é exposto nesse relato. Para que não fique muito confuso, irei explicar um pouco sobre a condição dos negros nos Estados Unidos naquela época. A liberdade não era um direito de todos eles, os negros, eram vistos como inferiores e tratados como animais por muitos senhores donos de fazendas.

No norte dos Estados Unidos a escravidão não existia mais, de modo que os negros eram livres, podendo constituir famílias e usufruir de sua liberdade — embora, é preciso salientar, isso não significasse que não sofriam preconceito ou ainda que deixassem de ser inferiorizados. No sul, contudo, a situação era o exato oposto. A escravidão, em pleno vapor, era o suporte para a economia local. A escravidão nos EUA foi abolida apenas em 1863.

Solomon Northup foi um homem livre desde o seu nascimento. Ele viveu no norte dos Estados Unidos, onde a escravidão era considerada um crime. Seu pai, Mintus Northup, foi libertado após a morte do seu senhor. Desde a juventude, Solomon trabalhou em diversas ocupações, o que deu a ele muita experiência e que o ajudaria durante os anos em que passou como escravo. Ele era casado com Anne Hampton, com quem teve três filhos, Elizabeth, Margaret e Alonzo.

Ele era bastante conhecido por seu talento como violinista e, por conta disso, foi contratado por dois homens para tocar em Washington. Esses homens armaram para ele, que acabou sendo sequestrado. Após o seu sequestro, ele foi levado a um comerciante de escravos. A partir daí se deu o início de seu suplício. Foram, no total, doze anos de escravidão antes que ele pudesse encontrar alguém em que pudesse confiar para pedir ajuda e ser libertado.

Durante o livro, Solomon relatou como foi todo o tempo em que foi escravo. Vivendo grande parte desses doze anos no estado sulista americano da Louisiana, onde a escravidão ainda era assegurada por lei, ele trabalhou para diversos senhores, sendo reconhecido por sua habilidade de trabalho tanto como músico, marceneiro e em algumas lavouras.

Um fato a se ressaltar é que nem todos os senhores de escravos eram necessariamente homens ruins. Não se deve nunca esquecer que eles também faziam parte desse regime escravocrata e que cercearam a liberdade de Solomon apenas para ascender-se economicamente, contudo, vale dar uma atenção maior a esse aspecto. Com o avanço da leitura, percebemos, muitas vezes, que a escravidão e o preconceito são colocados desde a infância como uma verdade absoluta e aqueles que a contestam são considerados loucos.

Todo o livro é muito cheio de detalhes  dos locais onde ele residiu, processos de colheita, açoitamentos, fugas. As partes em que é detalhado o processo de colheita são bem cansativas — os detalhes são extremamente importantes para o desenvolvimento da narrativa, o problema é que em alguns momentos acabam se prolongando durante muito tempo e isso atrapalha o ritmo da leitura.

Pode passar pela nossa cabeça que é um absurdo ele ter passado todo esse tempo sem dizer a ninguém que era um homem livre, mas temos que lembrar que no local onde ele estava esse tipo de pensamento era considerado uma loucura. Ninguém acreditaria nele. Se ele tivesse revelado isso a algum dos homens que foram seus donos, poderia ter encontrado, eventualmente, um destino muito pior.

Em seus doze anos como escravo, ele teve muitos companheiros de senzala. Infelizmente poucos deles conseguiram finais felizes, enquanto a maioria encontrou apenas sofrimento. A situação dos escravos é mostrada explicitamente, chegando a ser extremamente chocante ler certas partes. É difícil não sentir raiva diante da crueldade mostrada por alguns  homens, mas não apenas eles como também toda aquela sociedade sulista americana. Você fica se perguntando como as pessoas são capazes da fazer isso com os outros seres humanos, até onde vai seu ódio, até onde estão dispostos a ir para garantir suas riquezas. Como podemos pensar que temos completo direito sobre outro individuo além de nós mesmos?

É incrível como apesar de tudo os escravos mantinham esperanças, mesmo muitos daqueles que não conheciam outra realidade a não ser a das lavouras. Privados de educação, eram mantidos na ignorância por homens que pensavam serem “superiores” a eles; às vezes, o sonho da maioria era apenas conseguir chegar ao fim do dia sem levar um golpe de chibata de seus capatazes.

12 Anos de Escravidão” está longe de ser uma leitura fácil e é impossível não sentir uma miríade de emoções. Há momentos em que é necessário parar, tentar controlar as emoções diante de tanta crueldade. Não tenho vergonha de dizer que chorei.

Recomendo muitíssimo “12 Anos de Escravidão” e espero que a leitura dele seja tão marcante para vocês quanto foi para mim.

Pedro Vinícius tem 18 anos e mora, atualmente, em João Pessoa - PB. Criou o "O Livreiro" em 2012 com o intuito de difundir informações a respeito do mercado editorial e suas impressões sobre leituras. Além de dividir seu tempo como estudante e blogueiro, dedica-se a - tentar - escrever os próprios livros, poemas, contos e crônicas. Twitter: @__PedroVinicius

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