Resenha: “Corações Feridos” — Louisa Reid

Corações Feridos Louisa Reid

Autora: Louisa Reid
Editora: Novo Conceito
Páginas: 256

Alguns livros têm o poder de nos tocar profundamente. Esses livros mexem com nosso coração, mexem com nossa cabeça, mexem com aquilo que acreditamos ser certo, com aquilo que mais repudiamos. Eles nos deixam confusos, nos deixam entusiasmados e, às vezes, nos deixam com uma enorme sensação de impotência. O que fazer quando tudo o que você mais quer é impedir que algo aconteça? O que fazer quando ficamos cara a cara com esse pungente sentimento de incapacidade? Quando temos que assistir à tamanha dor, tragédia, injustiça e desumanidade sem poder fazer nada para mudar isso? Os livros que nos deixam assim — impactados, famintos, enraivecidos, angustiados, compadecidos — são os melhores. Porque eles se encaminham e se fixam naquilo que temos de mais íntimo — nossos pensamentos. Porque eles nos fazem sentir. E às vezes, eles nos machucam e nos curam simultaneamente.

Corações Feridos, de Louisa Reid, é um desses livros.

Embora sejam irmãs gêmeas, Hephzibah e Rebecca não poderiam ser mais diferentes. Rebecca sofre da Síndrome de Treacher Collins e seu rosto é completamente desfigurado. Hephzi, por sua vez, é muito bonita. Uma é o contraponto perfeito da outra; a irmã ponderada, feia e taciturna… a irmã voluntariosa, linda e inflamável. No entanto, suas diferenças físicas e/ou comportamentais jamais poderiam reduzir seu amor, tampouco a necessidade que elas têm de se defender. E é imprescindível que elas se protejam mutuamente, porque vivem em um lar completamente opressor. Seu pai, um pastor protestante, é intolerante, é intransigente, é violento e é um fanático religioso que sorri para seus fiéis, ludibria-os com suas palavras acaloradas proferidas em nome de Deus, mas, ao fechar a porta de sua casa, comete atrocidades contra as filhas; coisas odiosas.

Rebecca e Hephzibah anseiam por liberdade. Anseiam pelo dia em que poderão ser livres sem calcular cada passo e palavra, sem temer pelas consequências de serem quem desejam ser; anseiam pelo dia em que poderão ler os livros que quiserem, irem aonde quiserem… Por muito tempo, a vida delas é a mesma. Incerta, mas tão violentamente certa… As coisas só começam a mudar quando elas passam a frequentar uma escola pela primeira vez e Hephzi encontra uma maneira de fugir, de abandonar suas correntes. Contudo, o preço pelos sonhos da jovem é cobrado pela moeda mais cara: sua própria vida. E agora Rebecca está só, e só ela sabe a verdade sobre a morte da irmã — e sobre o que acontece em sua casa. Rebecca precisará lutar contra seus próprios demônios e contra aqueles que a torturam, porque ela tem uma chance… Uma chance que se for desperdiçada, minará sua vida para sempre.

Corações Feridos caminha pelos pontos de vista de Rebecca e Hephzi. Já no primeiro capítulos ficamos cientes da morte de Hephzi, o que serve para introduzir a trama: Rebecca conta a história no presente, após o enterro da irmã, enquanto esta fica por conta de narrar seu passado, conduzindo-nos até seu trágico fim. Louisa Reid agiu bem ao configura a narrativa assim, porque dessa maneira a autora permite que a gente tenha uma perspectiva mais abrangente da trama e de seus personagens; o que é sempre interessante em um bom drama, pois não negligencia certas nuances da história.

Gravei o dia de hoje em minha memória como mais um dia negro, e está lá, uma dura história inscrita em meu coração. As histórias que tenho escondidas dentro de mim; se você pudesse abrir-me, leria a verdade. Olhe para dentro, retire a pele, a carne e os ossos e encontrará uma biblioteca de sofrimentos.

Um breve comentário: acompanhar a história de Hephzibah sabendo como as coisas terminarão para ela é muito doloroso. Você quer impedir que a protagonista tome determinadas decisão, torcendo para que, assim, seu destino seja outro. É aquela velha sensação de fraqueza, de que você não pode fazer nada para ajudar, de que você está de mãos atadas, impotente. De que algo terrível está acontecendo diante de seus olhos… E você apenas pisca, pisca, pisca e respira inércia.

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Esse sou me sentindo impotente (:

Rebecca e Hephzi são protagonistas demasiadamente interessantes. Suas personalidades são conflitantes, e mesmo que não concordemos com algumas de suas escolhas, é impossível não torcer e sentir empatia com elas — com seus sonhos —, e mais impossível ainda não se apiedar por elas — frente à dor e ao horror que elas sempre viverem.

Corações Feridos é uma leitura densa e carregada de emoção. Isso não significa que seja difícil: é crua, sim, mas é ágil e até mais objetiva do que eu esperava. A escrita de Louisa também não está isenta de erros (esse é apenas seu primeiro livro), o que poderia ser dissonante e desanimador em outro romance, mas que aqui serve para ratificar a humanidade da obra.

Corações Feridos é uma jornada em busca da própria liberdade. É uma jornada contra preconceitos e visões de mundo mesquinhas, estarrecedoras, egoístas e distorcidas; uma jornada contra aqueles que se munem de um deus para dar vazão ao seu ódio, para explicar suas atrocidades, subjugar o quê e quem lhes convêm. É uma jornada sobre seguir em frente e não deixar de olhar para trás, sobre lutar por si mesmo, por seu futuro, por quem você ama, por quem você pode ser, por quem você é e por quem você quer ser. É uma jornada de autoconhecimento, de coragem e de como podemos nos tornar os senhores de nossos próprios destinos; tomar as rédeas de nossas vidas e… viver.

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Pedro Vinícius tem 18 anos e mora, atualmente, em João Pessoa - PB. Criou o "O Livreiro" em 2012 com o intuito de difundir informações a respeito do mercado editorial e suas impressões sobre leituras. Além de dividir seu tempo como estudante e blogueiro, dedica-se a - tentar - escrever os próprios livros, poemas, contos e crônicas. Twitter: @__PedroVinicius

Comentários


2 Comentarios
  1. Erika Paiva disse:

    Tenho muita vontade de ler esse livro, parece ser muito bom.

    http://infinitoparticulardoslivros.blogspot.com.br/

  2. Nusss, se torcermos esse livro com certeza cai lágrimas e sangue!!! O início dele já diz tudo! E vai ficando cada vez mais denso, cada vez mais… apaixonante!!!
    Muito boa a resenha, parabéns!!!

    []‘s
    Fabricio Machado
    http://loucamenteloucamente.blogspot.com.br/